“ OS NOSSOS IDOSOS ”
- ... Como estamos nos relacionando com eles ?... -
“ Nesta matéria eu não vou falar de velhos mendigos, que estão abandonados pelas ruas, passando fome, em condições de vida sub-humanas, dormindo pelas calçadas ou embaixo dos viadutos, fedidos, em absoluto abandono pela sociedade e pelas autoridades, dignos de pena. Vou falar sobre idosos que são pais ou sogros de famílias sem maiores problemas financeiros e até mesmo membros de famílias ricas, famosas e que vivem nas colunas da chamada “society”, que também são dignos de pena.
Desculpem-me, mas eu não sou político partidário, graças a Deus, para viver falando e escrevendo coisas, preocupado com o agrado geral, não sou hipócrita, não suporto a demagogia dos chamados “bicos doces”. Não sou membro de doutrina de falsos moralismos e mania de evolução espiritual aparente, em que pese no universo doutrinário onde vivo existir tanta gente inserida neste perfil.
A coerência e o bom senso é o mínimo que esperamos de qualquer cidadão que tenha o mínimo de vergonha na cara. Vamos lá.
A forma como o idoso vem sendo tratado nos dias atuais é a mais deprimente, desrespeitosa e vergonhosa possível, tanto pelos governantes quanto pelas próprias famílias.
No lado do governo encontramos essa idéia maluca de que os reajustes dos aposentados e pensionistas sempre devem ser menores que aqueles aplicados em cima do salário mínimo, que já não é lá essas coisas, embora saibam, muito bem, os governantes, que os produtos diversos, indispensáveis à sobrevivência, principalmente medicamentos, adquiridos pelos idosos não são mais baratos que os adquiridos pelos que têm reajustes pelo salário mínimo.
O cidadão brasileiro que durante décadas recolheu as suas contribuições para a previdência, acreditando sempre que governo era sinônimo de coisa séria e que jamais lhe aplicaria um golpe na sua velhice, esperando ter mantido o padrão de vida pelo qual contribuiu, de repente se vê diante de um irresponsável arbítrio que lhe reduz esse padrão a cada ano que passa, sem ter a quem recorrer.
É triste, gente, saber que existem pessoas que contribuíram por mais de trinta anos para terem um padrão de vida num patamar de 10 salários mínimos, por exemplo, mas se vêem obrigadas a se submeterem a viver apenas com 3 ou 4 salários, só porque o governo comodamente diz que não tem dinheiro para lhes pagar com justiça o que de direito lhes é devido.
Será possível que esses governantes não sabem que os aposentados não têm culpa e muito menos devem ser penalizados, por causa dos roubos que muitos políticos sem vergonha fizeram aos cofres da previdência e que, apesar de denunciados, continuam soltos por aí, rindo na cara de todo mundo?
Para completar a pouca vergonha, ainda convivemos com a máfia bancária oferecendo esses venenosos “empréstimos” para aposentados e pensionistas, uma das maiores arapucas já vistas neste país, com aval do governo que, longe de beneficiar, está causando prejuízos a tantos idosos que também não têm a quem reclamar. Os relatos de sofrimentos neste item são inúmeros, que já justificariam uma matéria sobre o assunto.
Portanto, quero manifestar o meu veemente protesto contra a maneira fria, irresponsável, inconseqüente e insensível como os governantes tratam os nossos idosos !!!
Mas este não é, ainda, o problema mais grave na relação humana com os nossos velhinhos.
O pior de tudo é a relação da família para com eles.
Supõe-se, teoricamente, que a própria família seja solidária com os seus idosos, que os filhos, netos, sobrinhos, genros e noras lhes dediquem o carinho e o respeito necessários, por uma questão de coerência e justiça, mas, infelizmente, não é a realidade que se vê...
A maneira como o idoso vem sendo tratado dentro dos lares, com raras exceções, tem sido a mais desumana possível.
Muitas famílias não os vêem como criaturas mais experientes da vida e sim como trapos velhos. A memória curta e atrofiada de muitos não é capaz de perceber que foram esses idosos quem, no passado, nos suportaram em todos os momentos, quando muitas vezes lhes causamos terríveis dificuldades.
Muitos dos seus filhos, que hoje são pais dos seus netos, incomodam-se e vivem dando “xiliques de frescura”, reclamando o tempo todo por causa do cheiro dos velhos dentro de casa, esquecendo-se de que esses mesmos velhos, alguns anos atrás, toleraram pacientemente, sem reclamar, os cheiros de cocô das suas fraldas, a urina, os seus vômitos, sentindo também o odor de colchões fedorentos daqueles filhos que durante anos fizeram xixi na cama, sem controle...
Foram esses mesmos velhos, com obrigações de terem que acordar cedo, inteiros e dispostos, no dia seguinte para os compromissos diários, que ficaram inúmeras noites acordados cuidando das febres, gripes, diarréias, dores de barrigas e desconfortos que não nos deixavam dormir, quando chorávamos sem parar.
Eles praticamente se mataram para conseguir recursos para manter a nossa alimentação, educação e sobrevivência em geral. Muitos temos uma casa própria e um patrimônio que foi construído graças ao esforço deles, a custa de muito sacrifício. Será que não conseguimos enxergar isso?
No entanto, gente, qual é a retribuição que muitas famílias dão a essas criaturas humanas que nos deram tanto?
Garanto que não estou exagerando, mas raro é o lar onde os idosos são tratados com carinho, afeto e a consideração que merecem. A maioria os trata com a mais desumana indiferença.
Eles não fazem parte do círculo de amizades das famílias, não deixam que eles participem dos bate papos. Quando abrem a boca para dar opinião acerca de alguns problemas que enfrentamos, rara é a família que se dispõe e escutar as suas experiências; muito pelo contrário, é comum ouvirmos coisas do tipo:
- “Ih, vovô, não se mete. Já vem o senhor falar besteira”.
- “Os tempos são outros, vovó, não venha com esses seus conceitos ultrapassados”.
- “Ninguém chamou o senhor aqui pra dar opinião.”
- “Não enche, vovô, o senhor é um saco”.
- “Ih, mãe, vou terminar saindo desta casa. Não agüento mais quando o vovô começa a falar, falar e falar”.
- “Chega, vó!!! Quer parar de encher o saco?”
É ou não é assim, na maioria dos lares?
Infelizmente isto é uma realidade.
O idoso não tem direito nem de escutar as belas músicas do seu tempo porque há sempre um adolescente incomodado e reclamando. Para não contrariar a família, ele priva-se do prazer de ouvir o que gosta. No entanto, quando o adolescente resolve colocar as suas porcarias, que chama de música, a todo volume, não tem a menor preocupação se vai ou não agradar e não se importa nem um pouco se o vovô ou a vovó estão bem de saúde.
Quando se fala em televisão, então, aí é que ele não tem direito nenhum, uma vez que a sua opção de escolha nunca é prioridade no lar. Se o adolescente ou um outro adulto da casa resolve mudar de canal, muda mesmo e ele tem que ficar calado.
Existem muitos lares em que os avós são depositados no quarto de empregada, para que fiquem o mais distante possível da família.
É comum situações em que a dona da casa diz pra sua velha mãe:
- “Mamãe, nós vamos receber uma visita hoje. Eu e meu marido queremos lhe pedir um favor: Pelo amor de Deus, não vá à sala. Fique aí quietinha no seu quarto”.
Muita gente tem vergonha de mostrar os seus idosos para os tais “amigos” da podre, insensível e vergonhosa sociedade...
Outros os depositam nas chamadas casas de repouso, sob a alegação de que eles precisam conversar com “gente da sua idade”, quando na realidade querem mesmo é se verem livres dos trapos velhos...
Deixe-me contar uma experiência:
Certa ocasião eu era diretor de uma emissora de televisão, afiliada da Rede Globo, em Belém do Pará, muito jovem, com vinte e poucos anos, empolgadíssimo em fazer televisão numa época em que até uma reportagem era difícil, pela carência de material de filmagem daquele tempo.
Fui visitar uma dessas casas de “repouso”, chamada “Pão de Santo Antonio”, muito conhecida naquela cidade, acompanhado pelo cinegrafista Milton Mendonça (também idoso), quando deparamos com uma das cenas mais tristes que já vi em minha vida.
Lá estavam velhinhos, depositados por famílias ricas, poderosas e participantes da chamada alta sociedade paraense, daquelas que estão sempre sorridentes nas colunas sociais dos jornais e da televisão.
Fizemos as entrevistas em filme de 16 milímetros (cinema), película custeada pelo próprio Milton e não pela emissora, onde os velhinhos identificavam quem eram os seus parentes, filhos e netos, informando-nos que não recebiam uma visita sequer de um familiar há mais de um ano, alguns há mais de três anos.
Depositam e esquecem que existem, não vão nem visitar.
Era triste, gente, muito triste o que eu vi.
Fui proibido de colocar a matéria no ar! Quando tentei me rebelar, diante da proibição junto aos donos da emissora que, por sua vez, foram também pressionados pela tal “society”, que tomara conhecimento do material que preparamos, fui ameaçado de demissão imediata.
E o público terminou não sabendo daquela dura realidade. Continuou a ver aqueles “socialites” com a cara mais cínica do mundo na televisão e nos jornais, desejando feliz natal e próspero ano novo para todo mundo, porque era época de natal, e o público achando que se tratavam de pessoas boazinhas e sensíveis.
Até onde vai a cara de pau das criaturas humanas?
Não quero com esta matéria colocar todos os velhinhos que hoje sofrem de solidão e indiferença na condição de vítimas, porque nem todos o são.
Conheço muitos que, também, nos seus tempos de jovem, abusaram da sua juventude e também humilharam ou foram indiferentes em relação aos idosos da sua época. Se você visitar, por exemplo, a “Casa dos Artistas”, no Rio de Janeiro, tão carinhosamente e humanamente administrada pelo amigo e ator Stepan Nercessian, verá que ali encontram-se algumas criaturas, nem todas, obviamente, que na época do sucesso viviam cheias de frescuras, naquele estrelismo insuportável e irritante que contaminam muitos artistas que não sabem administrar a fama e se acham superiores a todo mundo, agredindo até os próprios fãs. Estão colhendo o que plantaram...
Conheço uma idosa, em Belém, que fora até “Miss” em épocas passadas, uma das mulheres mais “gostosas” e lindas que o Pará já teve conhecimento, que esnobou todos os homens da sua época e todas as demais mulheres, um verdadeiro “porre” de convivência, que na sua chatice e prepotência agredia até os familiares, e que hoje está numa m... de fazer pena, tamanho o sofrimento pela absoluta e total solidão. Mas a natureza fez com que a mulher ficasse uma velha tão feia, com aquela cara monstruosa, que as crianças correm dela, já que sua cara hoje se parece com um maracujá de gaveta... e fede mais que um gambá.
Injustiça e castigo de Deus? Quem não conhece o seu passado morre de pena. Mas não, não é castigo nenhum não, é a expressão da aplicação de alguma coisa que, na filosofia de vida que eu pratico, chama-se Lei de Causa e Efeito.
Confúcio dizia: “Conta-me o teu passado que saberei o teu futuro”.
Lembremos também William Shakespeare, quando nos diz:
“Sabes de algum esbanjador que tenha sido amado depois de ter perdido tudo o que possuía? ”
Quero aqui, para finalizar esta matéria, aproveitar-me do exemplo para alertar aos jovens de hoje e até mesmo a muitos adultos, que não têm o menor juízo no relacionamento com os idosos dos dias atuais:
Querem continuar com a sua frieza, insensibilidade e indiferença em relação aos velhinhos, que continuem. Mas não tenham a menor dúvida do que lhes espera no futuro, se é que vocês vão também conseguir chegar aos sessenta, setenta, oitenta ou noventa anos de idade. Pois é, porque podem morrer bem antes...
A semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória. Não esperemos receber carinho, afeto, ternura, amizade, compreensão, companhia e atitudes de amor dos que serão os jovens no futuro.
Se você acha que este artigo é apenas uma filosofia isolada do Alamar, que talvez esteja nos sessenta sofrendo destas coisas, saiba que eu não cheguei aos sessenta ainda e até estou distante desta idade, mas não sou burro e muito menos cego. Não é preciso ser velho para defender os idosos, basta ter bom senso e um pouco de sentimento de amor. Quero citar aqui alguns filósofos e sábios da antiguidade, para que todos abram bem os olhos:
Voltaire dizia que “Todos têm suas penas, sejam reis ou pastores, sejam cães ou carneiros” e dizia também: “Existirá alguém tão esperto que aprenda pela experiência dos outros?” e ainda o mesmo Voltaire, quando cita: “O que é virtude? Beneficência com o próximo.” Esse próximo deve ser, principalmente, os nossos entes mais próximos !!!
Shakespeare dizia algo muito interessante para a nossa reflexão: “Monstruoso é o homem quando assume a forma da ingratidão”.
Gandhi, o apóstolo da não violência, ensinava: “Não acredito que um indivíduo possa progredir espiritualmente, enquanto aqueles que o cercam estão sofrendo” e também falava repetidas vezes: “O futuro dependerá daquilo que fazemos no presente”.
Para encerrar, o notável Charles Chaplin: “Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo do trabalho, que dê futuro a juventude e segurança à velhice”.
( Alamar Régis Carvalho - "Biografia" - 1951/**** )
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